Exemplo de responsabilidade com o meio ambiente
9 DE ABRIL DE 2010. A nossa reportagem foi até o Aquário de Natal, que fica na praia da Redinha, a 10 minutos do centro da cidade, indo pela ponte Newton Navarro. Apesar de ser uma empresa privada, tem um trabalho de responsabilidade social muito importante em relação ao meio ambiente.
O biólogo e também proprietário do Aquário de Natal, Douglas Brandão, recebeu a nossa reportagem e falou sobre o seu projeto, que inclui a construção de um grande zoológico na estrada de Genipabu.
“Eu era estagiário do Aquário de Santos (SP), onde me formei em biólogo. Aí falei: ‘Ou vou entrar numa sala de aula ou vou para o nordeste montar um aquário. Como eu já conhecia o Aquário de Santos, aí surgiu a idéia de montar um aqui. Na época o Nordeste não tinha Aquário. Hoje, só tem aqui e em Aracajú, que é do Tamar. Eu tinha parente aqui em Natal e fomos escolher uma praia. Para mim não importava onde era o local e sim onde tinha passagem turística. Nós começamos como um aquário, com alguns peixes, aí começaram a vir repteis, anfíbios, mamíferos. Hoje, são mais de 60 espécies de animais, a maioria peixe de água doce e salgada”, afirmou Douglas Brandão, que fez questão de esclarecer que o Aquario Natal funciona também como um zoológico, conforme regulamento do Ibama.
A média de visitação pública é de 110 mil pessoas por ano. Cerca de 70% são turistas, 20% de escolas e 10% a população de Natal. “A gente é mais conhecido fora do que em Natal”, disse Douglas.
O curioso é que o Aquário de Natal é o principal responsável pelo tratamento e recuperação de animais resgatados pelo Ibama e outros órgãos públicos, como o projeto Tamar. O problema é que o Ibama, órgão ambiental do governo federal, não tem veterinários nem estrutura suficientes para tratar e proteger a fauna brasileira. Por isso, animais chegam a morrer por falta de tratamento e proteção.
Apesar de atender todos os casos e salvar a vida de muitos animais, o Aquário Natal não conta com o apoio necessário para fazer certas cirurgias, que dependem de equipamentos especializados.
Os animais que se recuperam e tem condições voltam para o convívio com a natureza. Os que não podem voltar para seu habitat natural passam a fazer parte do plantel do Aquário. Alguns peixes foram comprados. Outros vieram da apreensão do Ibama.
“Quem trás muito é Ibama, Polícia Ambiental e Bombeiros. A gente tem um Termo de Ajuste de Conduta com o Ibama que permite o Aquário receber animal marinho a qualquer hora do dia, e animais terrestres nos sábados, domingos e feriados, até a noite, quando o Ibama fecha. Tem um chamado para a tartaruga marinha que está desovando, aí a gente vai ajudar”.
O Termo de Ajuste de Conduta com o Ibama inclui ajuda financeira?
Douglas: Não, é só a questão de receber os animais para tratamento e soltura. O Tamar ajuda com a parte de medicamentos das tartarugas. Outros animais que não sejam as tartarugas são bancados exclusivamente pelo Aquário. Já recebemos gaviões, tatu, guaxinim, filhote de baleia, golfinho, peixe-boi.
Os animais feridos que são tratados voltam para seu ambiente normal?
Douglas: 90% dos casos sim. Só alguns animais que a gente vê que não tem condições de serem soltos é que ficam no aquário. Vieram três pingüins da Bahia. Esses animais não serão soltos, ficarão aqui para o resto da vida.
Quais as maiores dificuldades para montar um projeto desse tipo?
Douglas: Primeiro, tem que ter capital para conseguir uma área. Segundo é pessoal técnico, porque não adianta conhecer somente de peixe, tem que conhecer um pouco de cada animal. Tem que ter uma equipe de veterinários. Aqui é muito difícil encontrar veterinário que cuide de animal silvestre.
Por que vocês mandaram algumas espécies para um aquário de São Paulo?
Douglas: Mandamos dois tubarões lixas porque o nosso tanque já estava muito pequeno para eles.
Como é essa relação com outros aquários e zoológicos?
Douglas: Zoológicos podem permutar animais. Eu já mandei vários animais para o zoológico de Recife. Quando inaugurar o zoológico daqui eles vão me mandar alguns animais. Por exemplo, Bauru já me prometeu Leão, Lhama, Tamanduá.
Qual a sua avaliação em relação ao futuro do meio ambiente e das
espécies animais?
Douglas: Olha, tem muitas espécies que daqui a quarenta anos só vão se reproduzir em zoológico. Cada vez mais o desmatamento está se acentuando e começa a ter fuga dos animais para a cidade. Conseqüentemente, esses animais começam a morrer. É muito fácil alguém matar um jacaré, um guaxinim. Matar uma Jibóia. Ou o ser humano muda ou muitas espécies desaparecerão. Se for temperatura, aquecimento global, se for contaminação de metais pesados, então, tudo é a mão do homem.
Em relação a animais que chegam feridos, qual é o percentual
de sobrevivência?
Douglas: A cada dez tartarugas marinhas que chegavam estávamos conseguindo soltar sete. Só que nos últimos seis meses modificou. De cada dez a gente só está conseguindo restabelecer cinco, porque mudou o tipo de doença.
Há possibilidade de algum animal desses, por exemplo, o tubarão,
se estressar?
Douglas: Não. Agora em março, abril e junho, a gente fecha às segundas, para manutenção e também para não estressar muito o animal. O aquário é totalmente escuro porque a visualização é melhor e durante a noite a gente apaga todas as luzes, como se fosse o mar ou a floresta. Então diminui o estresse do animal, a sobrevida dele é maior.
Enquanto os tubarões estavam sendo alimentados Douglas afirma que, de vez em quando, são colocados peixes vivos para eles caçarem, assim como no habitat natural.
Uma curiosidade: Numa lagoa dentro do aquário jacarés e tartarugas convivem normalmente numa boa.

Pingüins
Os pingüins estão num espaço reservado com temperatura de 17 graus. “Existem dezessete espécies de pinguis. Só duas realmente que vivem no gelo, que é o piguim-rei e o pingüim-imperial”, informou douglas.
A média de alimentação do aquário é mais ou menos uns cem quilos de peixe por mês. Trezentas bananas para o macaco. Além de frutas e legumes. São mais de 60 espécies, mais ou menos 200 animais. Desde anfíbio, repteis, mamíferos e aves.
Aqui é um zoológico, mas você tem um projeto de ampliar.
Douglas: Vamos começar a ampliar aqui para a parte de animais marinhos, o zoológico será em outra área que a gente está comprando.
Vai continuar com um foco maior em animais marinhos ou a idéia é
expandir a diversidade animal?
Douglas: Aqui ficarão peixes de água doce e salgada. No outro espaço será um zoológico mesmo de maior porte, onde terá todas as espécies de animais.
Como está o andamento do projeto do zoológico?
Douglas: Eu preciso pelo menos de um terreno com quatro hectares. A gente já comprou dois hectares. Então, a tendência é nos próximos anos a gente comprar terrenos paralelos na área ao redor até completar os quatro hectares. Há dez anos compramos esse terreno por 16 mil reais. Hoje, o vizinho quer vender o terreno de mesmo tamanho por 400 mil. A maioria dos terrenos à beira-mar pertence a estrangeiros.
Esse projeto tem algum apoio?
Douglas: Por enquanto não, porque a gente só está comprando a área. No momento que tiver a planta vamos solicitar, provavelmente, a duplicação da estrada de Genipabu e a melhoria da linha de ônibus.
A ampliação do aquario-zoológico depende da normatização da APA (Área de Preservaçao Ambiental). “Aqui é uma APA, então, todas as construções da Redinha Nova, uma parte da Redinha e Santa Rita estão proibidas”, afirma Douglas.
Crime ambiental
Recentemente houve uma polêmica sobre a morte de moréias e peixes aqui no Rio Grande do Norte. Inclusive, a bióloga da UFRN, Liana Mendes, chegou a alegar que o motivo poderia ser a mudança na temperatura da água. O que você acha?
Douglas: Na verdade, ainda não saiu o laudo. Já teve problemas de morte de moréias em Pernambuco e na Paraíba. Lá, também não se chegou a nenhuma conclusão. Eu acho pouco provável que tenha sido temperatura. Inclusive, a gente tem ambiente aqui em que a temperatura da água aumenta e o animal não morre. Agora, o que foi realmente eu não sei. O mais estranho nisso é porque morreu mais moréia de uma determinada espécie, que é a moréia verde. Parece que um ou outro bagre, mas 90% dos animais eram moréias verdes.
Como é feita a divulgação aqui do Aquário?
Douglas: A gente faz mais aquela propaganda boca a boca. O pessoal gosta e traz os familiares. A gente tentou comercial na televisão, mas é muito caro. Já tivemos parcerias com o SBT (TV Ponta Negra) e Record (TV Tropical) para divulgar o trabalho do aquário. O que a gente nota aqui é a discriminação com a Zona Norte. mas o que muita gente não sabe é que do aquário até o centro da cidade são apenas dez minutos. O ponto turístico que mais aumentou o público depois da ponte nova foi a gente. Porque saímos daquele negócio só de bugueiros e o pessoal começou a vir mais de carro e de ônibus. Antes da ponte nosso público era de 50 mil pessoas ao ano. Aumentou para 110 mil em dois anos.
Segundo Douglas o maior pico é em janeiro, até o carnaval. Em julho, mais ou menos meio de julho. Isso de turismo. Escola é mais a partir do segundo semestre, setembro, outubro e novembro. O pior período é agora, março, abril, maio e julho.
As despesas com o Aquário giram em torno de 50 mil por mês. O dinheiro para manter a estrutura funcionando, pagar funcionários e os impostos vem da bilheteria, cantina e loja.
A visita funciona diariamente, das 8h às 18h. A entrada custa 10 reais. Crianças de dois a oito anos paga meia, que é cinco reais. Idoso acima de 60 anos também é cinco reais. As escolas chegam a mandar cem alunos por turno. Para isso, está sendo construído um auditório, onde poderão ser realizadas apresentações e palestras sobre meio ambiente. Alem de aumentar o público destinado às escolas.
Durante a entrevista percebemos que os visitantes passavam a mão sobre o tubarão lixa, que fica num tanque aberto. Segundo Douglas esses tubarões são dóceis e não representa nenhum perigo. “Já houve ataque a mergulhadores em alto mar, mas em cativeiro não tem problema”, afirmou.
De volta para o seu lar
Entramos na clínica, onde animais de várias espécies estão sendo tratados, a exemplo de três gaviões, que, segundo Douglas, não podem mais serem soltos, pois sempre foram criados em cativeiro. Ao nos aproximar da grade de proteção um dos gaviões abaixa a cabeça esperando ser acariciado.

“É sempre assim, todo mundo que chega aqui ele se aproxima e abaixa a cabeça para coçar, então, se ele estiver solto é um perigo. Esse é o problema. Qualquer pessoa que chegar ele fica refém.”
Um dos gaviões levou um tiro e teve que amputar a asa. Depois do tratamento os gaviões serão encaminhados para outro zoológico, porque no aquário não tem espaço para eles. Apenas um será solto na natureza. No setor hospitalar também tem arara, pombo, tatu, cobra, guaxinim, tubarão e filhotes de tartarugas. Animais doentes ou feridos que depois voltarão para o seu habitat natural. Um importante trabalho de reabilitação e proteção de animais que foram ou serão salvos pelas mãos dos biólogos e veterinários do Aquário Natal.
Apesar de órgãos públicos, como Ibama e projeto Tamar, levarem animais para serem tratados no Aquário, o proprietário não recebe nenhum apoio governamental. “A gente recebe ajuda mensal de R$ 150 em alimentação da Alcon, empresa especializada em produtos para aquários. Além disso, o projeto Tamar mantém uma ajuda em alimento e remédio pelo tratamento das tartarugas”.
Recado
“O importante do aquário é que podemos mostrar a fauna da região, mas também a participação ambiental e a parte hospitar. A gente recebe animais, faz a parte de tratamento e soltura. Isso é gratificante profissionalmente. A gente depende exclusivamente da entrada das pessoas. O dinheiro que vai tratar o animal é o que a pessoa está pagando na bilheteria”.
As escolas podem agendar e levar seus alunos para uma aula prática de biologia. O telefone do Aquário Natal é (84) 3224-2641. Os interessados em fazer alguma doação de alimentos, como frutas e peixes, deve entrar em contato com o Aquário Natal.
OPINIÃO.......................................................................................................................................
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