“Houve várias Revoluções tecnológicas na humanidade. Houve uma mudança com o advento da eletricidade, da máquina a vapor. Revoluções industriais. Novas temporalidades foram sendo criadas. O advento da televisão, dos meios de comunicação, como o rádio. Ou seja, é importante para a gente sobreviver, inclusive, ter
essa visão histórica, panorâmica, contextual. E a tecnologia digital entra um pouco nisso. É uma nova temporalidade, nova sociabilidade. As pessoas se relacionam entre si através dessa tecnologia, como já se relacionava através do telefone, escreviam cartas. No final dos anos 1960 e início dos anos 1970, eu trocava cartas com pessoas
de todo o mundo para trocar selos. Era uma forma de me relacionar com pessoas
através da tecnologia existente, por que uma ligação (telefônica) era caríssima e você
se relacionava.”
“A tecnologia digital existe e está aí. Mas, é importante nesse contexto perceber que ela não acabou com contradições históricas. As pessoas têm celulares, umas são mais vistas do que outras. As pessoas têm celulares, umas estudam mais do que outras. As pessoas têm celulares e vivem em condições mais ou menos adversas do que outras. Ou seja, a tecnologia não acabou com as grandes diferenças que as pessoas e os grupos sociais têm, como a desigualdade. As tecnologias não terminaram com as desigualdades. É verdade que essa fragmentação e essa nova temporalidade criaram novas identidades fragmentadas. As pessoas se interrompem muito, há um grande grau de dispersão. O tempo é outro, o espaço é outro. No entanto, as grandes diferenças continuaram.”
“O acesso às tecnologias é importante. É importante que cada vez mais pessoas tenham acesso a internet e a outras tecnologias digitais. No entanto, é preciso verificar que algumas pessoas tem acesso numa Lan house, que pagam e acessam um pouco. Outras pessoas tem acesso, ainda, por internet discada.
Ou seja, a qualidade do acesso é um diferencial e não apenas.
Então, por exemplo, eu vejo as pessoas com esse aparelhinho sofisticado, como Ipod, palmtop,mandam SMS (mensagem pelo celular), entram na internet de forma diferente e outras pessoas que não entram.”
“Tão importante quanto você levar em conta o número de pessoas que tem acesso, é levar em conta a qualidade desse acesso. É preciso verificar que tipo de uso as pessoas fazem do acesso. Por exemplo, baixar filmes, música, produzir conteúdo, ou as pessoas estão essencialmente apenas consumindo conteúdo? A diferença entre produção e consumo é uma diferença fundamental para você avaliar o que é um tipo de inclusão sócio-digital.”
“A inclusão apenas como consumidor é muito difícil e é muito restritiva. É muito difícil você considerar cidadania as pessoas que compram uma televisão. Claro que é importante que a pessoa possa comprar uma televisão, mas ela produzir um programa de TV é muito mais importante. A mesma coisa se aplica em relação a produzir um vídeo numa câmera digital.
São diferentes formas de apropriação. As pessoas, muitas vezes, não enxergam isso.”
“Cidadania é, mais do que ter acesso como consumidor, você ser protagonista, ser produtor do seu discurso. Isso se aplica desde a época do rádio e da televisão. Nas mídias digitais essa convergência é a mesma coisa. Sem esquecer de que, embora 41,7% da população brasileira com mais de dez anos tenha acesso a internet, isso significa que 58,3% não tem acesso. Então, é interessante que nós percebamos que houve um aumento de 6,9%, em um ano do número de pessoas que tiveram acesso, mas esse aumento nada garante que seja progressivo. Às vezes a gente perde isso de vista, por que se vocês estão gravando e eu estou falando, se terá alguém me assistindo, ou se você vai editar essa fala, evidentemente que é sempre para pessoas que tem acesso. Agora, as outras 58,3% não tem acesso, não verão esse material e não terão acesso ao site de vocês. Não são eventuais consumidores de produtos que o anunciante tem interesse em anunciar no site, mas aí vocês vem com o jornal impresso, ou seja, a multimodalidade, trabalhar com múltiplas plataformas de comunicação parece ser cada vez mais importante, desde uma rádio comunitária até essa tecnologia hightech que nós, felizmente, conseguimos não só ver, como também consumir, como também produzir, buscando, portanto, exercer uma cidadania plena.”
{Dizem que a internet democratizou a comunicação.
É verdade?
“É preciso que nós vejamos sempre essas frases com um viés crítico. Em certa medida sim. Mesmo eu que apresento esses dados críticos, como outros colegas, digo que sim, para não parecer uma pessoa que nega a evidência. Há uma certa dimensão comunicativa que a internet permitiu democratizar. Mais pessoas podem falar hoje. Falar que eu digo no sentido metafórico, produzir o seu discurso. Produzir seu blog, seu site. Interagir através do SMS, entrar num chat. Então, em certo sentido eu concordo com essa frase. Eu concordo e discordo. Pelos seguintes motivos. 51% da população brasileira com mais de dez anos não tem acesso, para essa população a internet não democratizou. E democratizar não é apenas permitir que você compre um celular por R$ 100, em dez parcelas de R$ 10, amarrando você num plano de pré-pago em que você é obrigado a ficar um ano, se você quiser ter seu celular de graça. É mais do que isso. É você poder gravar esse discurso através do celular, produzir esse discurso, dominar uma tecnologia para editar esse discurso e produzir o seu próprio. Você poderia dizer que a democracia chamada burguesa é uma democracia, sim, é melhor que a monarquia. Quando no Brasil começou haver, como em outros países do mundo, o voto de pessoas que tinham certo poder aquisitivo havia mais democracia do que quando ninguém votava. Agora, você acha que isso é democracia? Essa que é a questão.”
“Claro que a internet democratiza em certo sentido,
mas é preciso que nós tenhamos uma visão crítica. Nem tanto ao céu, nem tanto à terra. Não podemos ter uma visão maniqueísta. Não é só preto e branco, tem tanto tom de cinza.
As eleições foram democráticas? As eleições são um momento democrático de fato? Há uma democracia na participação e nas diversas concepções de política que a gente vê expressas na mídia? Democracia é sinônimo de igualdade? A democracia que nós temos não é sinônimo de igualdade, de oportunidade entre os diversos segmentos sociais e as etnias.”