
Em toda sua extensão, pendurados na parede, centenas de cordéis dos mais variados estilos e temas. De Lênin à Che Guevara. Da idade média à idade contemporânea. Dos causos matutos à histórias de homens comuns do sertão nordestino. A decoração é bem peculiar. Em algumas paredes, versos escritos pelo dono da casa, Abaeté do Cordel. Em uma das estantes, DVDs, CDs e fitas K7 de cordelistas que declamam suas obras. Histórias que retratam desde o famoso Lampião, rei do cangaço, até histórias que tratam do dia-a-dia, com temas sobre separação, cornos e chegada de celebridades, como Bezerra da Silva ao céu.
Em nossa chegada, Abaeté e seu filho Érick, desenhista de mão cheia, trabalhavam na mais nova coleção de cordéis, lançada no dia 8 de março: Dez mulheres nordestinas, que retrata a saga de dez grandes mulheres, filhas do Rio Grande do Norte, e que a história “oficial” faz questão de esquecer. Enquanto prepara seus kits cordelistas Abaeté nos conta que “o problema do cordel é porque o cordel não tem editora, né? As editoras nunca vão ter o domínio do cordel, por que o cordel a gente escreve agora de manhã e à tarde está na rua”.
Continua embrulhando os kits. Abaeté agora fala do preço dos livros e da importância do cordel. “Eu tenho aís dois livros lançados. Mas o livro, além de ser caro, você faz o lançamento, convida e o cara vem todo abusado. Só vem para comer bolo, beber whisk (risos). Aí vem dez, cinco compram o livro e ainda tá lhe fazendo favor. Já o cordel não. As pessoas compram porque gosta. Se o cordel entrar na escola, tchau. Ninguém vai comprar mais livro. Por que a maioria dos livros são um monte de papel”.
Embrulha o último kit, puxa duas cadeiras e nos convida para sentar. Sentamos. Abaeté do Cordel senta em um banco encostado na parede à nossa frente e continua falando: “aprender com Cordel é mais divertido, atrativo e engraçado, devido a sua forma de escrita. Diferente dos livros didáticos, que de tão formais espantam os estudantes. O cordel era para ser super valorizado por sua função educativa”. Apesar de sabermos a resposta, perguntamos se ele recebe algum incentivo cultural do governo. Na certa, ele nos diz não e declara que a receita que mantém uma casa ricamente cultural aberta é o apoio dos populares e fãs da Literatura de Cordel no RN. Além das muitas escolas que visitam a Casa do Cordel, diariamente, para desenvolver pesquisa.
Preste atenção na entrevista que Abaeté do Cordel concedeu à nossa reportagem.
Por se tratar de uma linguagem mais simples, mais direta, o cordel foge da formalidade que o livro didático apresenta. No caso, você falou que recebe algumas escolas, elas visitam, compram, como é que é?
Abaeté do Cordel: Elas vêm visitar e pesquisar, né? Sobre o cangaço, meio ambiente. Rosa Régia (acabou de entrar na casa) escreve sobre idade média. [Rosa deixa sua declaração: “sobre qualquer idade: moderna, antiga, atual”] Abaeté continua... Mas o forte dela é poesia matuta, filosofia.
Geralmente as pessoas não sabem é que o cordelista tem que estudar um determinado tema para poder escrever sobre ele. A pesquisa é muito grande, dependendo do tema?
Abaeté: Os cordéis de Lampião, por exemplo, que eu tenho uns vinte títulos. Só tem uns dois é ficção, mas o resto tudo é pesquisado. Tem que saber: quem foi, por onde passou, pai, mãe, irmão, tudo, tudo, entendeu? Eu tenho ali Os números que assustam. Todo dia morre vários animais, todo dia morre várias plantas. As pessoas acham que a morte não existe. O negócio é consumir e ver novela e tal (risos). Então é isso, o cordel é uma forma das pessoas se informarem sem ter preguiça. Dona Neném, por exemplo, foi uma mulher simples, lá das Rocas, mas foi tão importante na vida cultura da cidade. Ela não é famosa por que não tem nenhum sobrenome A, B ou C. Por que no Brasil só é famoso se tiver dinheiro. Um cordel desses, se você é rico, ele lançado em todo o país. Em todo jornal eu tenho um amigo jornalista, que vai falar sobre mim e tal, só para me levantar, né?
[Mudando de assunto] Eu encontrei um camarada ali, que escreveu um livro e foi feito um filme que é muito famoso: As pelejas de Ojuara. [Foque: Sim. Nei Leandro de Castro]. Aí eu tava ali no Sebo e disse que aquele filme é um cordel, aí ele ficou com a cara desse tamanho. [Foque: Ele não gostou?] Acho que não (muitos risos). Mas é um cordel mesmo. Eu tenho várias ojuaras aí espalhadas. O cara gosta do cordel, mas não admite, acha que vai ser discriminado.
Talvez ache que não vai vender, não vai lucrar.
Abaeté: Não, vender vai, por que o maior sucesso de Ariano Suassuna, os maiores sucessos são baseados no cordel.
Mas Ariano é um famoso que valoriza e sente orgulho de dizer que é popular.
Abaeté: É, que ele não é besta, né? Embora eu ache que fez muita coisa pelo cordel, mas ele podia fazer muito mais, como secretário de cultura, mas ele tem contribuído demais.
Em nível nacional, qual o nome mais consagrado de cordelista?
Abaeté: Vivo ou morto?
Morto.
Abaeté: Morto é Patativa.
Inclusive, estamos comemorando o centenário do seu nascimento, dia 5 de março.
Abaeté: Patativa, por que ele deu a sorte de Luiz Gonzaga gravar um cordel dele. Além dele ser bom, gravou, aí estourou.
E um nome vivo?
Abaeté: Vivo temos grandes nomes. Aqui no Estado temos Antonio Francisco, muito bom. Em São Paulo tem muita gente. Tem Azulão. Às vezes tem cordelistas bons que não vendem. Eu não sou bom, mas um dos que mais vende sou eu, por que eu trabalho muito com coisa engraçada, sabe? Se tiver uma banca com um monte de cordel, o meu é que mais vende, por causa dos títulos que são engraçados. Já têm outros que são muito sérios. Porque no cordel você não pode pegar seu grau de instrução e jogar no cordel. Tem gente que quer se mostrar que é doutor. O cordel é popular, para rir. É por isso que dificilmente você ver um cordelista bom sendo da cidade. A maioria é do interior. Tem muita gente boa. Por exemplo, nosso presidente da Fundação (Crispiniano Neto), ele é muito bom, mas o esquema dele feito, fala muito filosofia. Tem que escrever livro. Ivanildo Vila Nova, violeiro, é advogado, mas ele quando vai cantar não fala nada de Direito, ele canta o que o cara pedir.
Por mais que seja um homem culto, ele desce do altar para assumir o cordel.
Abaeté: Por que é assim, a leitura é o principal para quem escreve. Uma vez lá no interior o camarada tava cantando, aí veio perguntar o que é bom para ser um bom poeta? Eu digo: ler muito. Por que rimar não tem segredo. Você vai rimar peão, aí vem botão, canção. Aí você pega a palavra cinza. Não tem palavra para rimar com cinza.
Não tem?
Abaeté: Não tem. Só Pinto do Monteiro, que foi um dos maiores cantadores do Brasil, aí disse: ‘Em cima da serra espinhosa, tinha uma veia fanhosa que para chamar camisa, chamava canhinza (risos). Rimou com cinza. Ele foi o único. Então, a rima não tem segredo. Eu desde menino sou viciado a ler jornal. Eu morei vizinho a um cabra importante, que ele recebia o Diário de Pernambuco, e eu lia o segundo tempo. Aí fiquei viciado, até hoje.
Dá pra falar um cordel pra gente?
Abaeté: Sou poeta cordelista, permita me apresentar. Sou de Lagoa de Baixo, não tenho medo do azar. Da seca sou retirante, legítimo representante da cultura popular. Não sou tão importante como um doutor menestrel, tô fazendo a minha parte, cumprindo com meu papel. Se você não me conhece, nunca mais você se esquece, sou Abaeté do Cordel.
Manda outro cordel aí.
Abaeté: Na seleção dos poetas da cultura popular, estou sempre convocado. Posso não ser titular, mas entro sempre em campo, orgulho de ser pernambucano e potiguar’.
Como é elaborado o cordel? A casa do cordel encomenda aos cordelistas ou isso fica bem à vontade para os colaboradores?
Abaeté: Assim, geralmente os cordelistas, cada um tem uma idéia, um tema, aí faz. As pessoas é que vem aqui e pedem assim, escreva aí sobre tal, por exemplo, Ceará-Mirim, problema de corno, aí eu escrevo, ou então assim, um parente que morreu, um casamento que acabou-se, aí a gente faz o cordel. Mas a maioria a gente pensa e cria. Eu acordei essa semana e veio na mente a mulher dos olhos de fogo, aí eu fiz uma história. É o que vem na mente. Hoje, o cara me pediu para escrever a chegada de Bezerra da Silva no céu (risos). Aí você já sabe, Bezerra da Silva diz: São Pedro segura isso aí, num arroche agora não. Vai ser um tema engraçado.
Você estava dizendo que há dois anos as livrarias não compravam cordéis e coisa e tal. Você acha que aumentou a procura de cordéis por populares?
Abaeté: Depois que abrimos essa casa aumentou, porque hoje tem muita gente escrevendo cordel. Têm outros que estão aproveitando o cordel, que está na moda, quem não sabe escrever fica com raiva se a gente tentar ajudar. Por que às vezes o cara escreve um livrinho aí diz que é cordel, coisa e tal, mas não é cordel. Ele tá se aproveitando do cordel que está na moda. Até receita pra bolo tão lançando em cordel.

Durante toda a entrevistabom populares entravam, compravam um cordel e batiam um pouco de papo antes de irem embora.
Abaeté já publicou entre 500 a 600 cordéis. Ele pretende chegar aos 1000 exemplares ainda esse ano. Quando isso acontecer, o dono da Casa do Cordel promete escolher dez títulos, decorar e declamar como fazem muitos de seus amigos.
Depois de um papo cultural e descontraído com Abaeté, na Casa do Cordel, fomos cumprir outra peleja na marcha das mulheres pelo centro de Natal.

OPINIÃO.......................................................................................................................................
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