Em sendo assim, acho possível acreditar que cada espaço, cada ambiente, exige um comportamento apropriado, uma “encenação”, que consegue transformar o indivíduo, o sujeito comum, em um multifacetado ator social, vivenciando um mundo de máscaras, um mundo de “personas”, onde o sujeito se faz e se refaz a cada momento; em cada espaço de ocupação e em cada “relação cênica”, sendo fruto tão somente do ambiente e do “elenco” com o qual tal sujeito “contracena” com os diversos outros sujeitos existentes.
Tendo a compreensão de que a vida é esse grande teatro, podemos então afirmar que nessa lógica social existe um cem número de personagens, figuras vivas que se tornam imortais, que são talhadas na própria vivência e que incorporam o personagem como sendo ele próprio, em outras palavras, pessoas que fazem do seu personagem o seu próprio ser.
Uma das figuras que, com o passar do tempo, tenho percebido a sua existência nesse amplo e especioso cotidiano é o dono do bar.
Todas as pessoas que costumam freqüentar bares, em especial, os barzinhos populares, aqueles que estão situados na periferia ou nos becos e vielas da cidade antiga, lugar aonde geralmente se encontra os melhores amigos de mesa de bar, as conversas mais inteligentes mesmo que seja sobre questões de pouca relevância, a cerveja mais gostosa que nem sempre é a mais gelada, o tira gosto mais saboroso com gosto de memória gustativa, costumam se deparar com esse personagem: o dono do bar.
O dono do bar é sempre um sujeito peculiar, ele se destaca do montante das outras figuras. No bar ele é o protagonista da cena, e por ser a figura central naquele espaço é natural que entendamos o dono do bar como sendo o principal ator social daquele espaço definido como sendo o bar.
O dono do bar é sempre muito bem humorado, ou o inverso, muito mal humorado. Na maioria das vezes é engraçado, gosta de contar histórias anedóticas que geralmente são histórias fatídicas de algum cliente seu que por ventura não está ali no momento exato em que a narrativa está sendo feita. Tem sempre a cerveja mais gelada da praça e quando percebe que o cliente que acabou de chegar havia bebido pouco traz para a mesa aquela garrafa “mofada” ou “nevada” como queira o leitor. Sempre tem tira gosto mesmo que seja um pedaço de mortadela, um ovo cozido colorido com Q’suco ou o último caldo guardado na panela que sempre estava à espera daquele cliente, caldo esse que sempre sai aguado.
Alguns donos de bar se tornaram personagens de vulto e para falar sobre essa figura torna-se necessário que falemos primeiro no espaço.
Recentemente ao folhear a revista Carta Capital deparei-me com o famoso Bip bip, barzinho localizado no bairro de Copacabana e fundado há quarenta anos. O Bip bip tem uma clientela especial, nada mais nada menos do que a nata do samba e do chorinho carioca, e, claro, tem um dono que é o Alfredo. Sujeito mal humorado que está sempre pedindo silêncio à sua clientela e que fica tão somente sentado próximo a duas bacias que usa como caixa ou porta dinheiro, no bar as pessoas que se servem e quase nunca tem o que comer.
Em visita à cidade do Recife um amigo me convidou a ir para o bairro de San Martin e me levou ao bar do seu Secundino, um português radicado no Brasil que ama Recife, mas ama ainda mais San Martin, é Secundino porque é o segundo filho de uma família de muitos filhos. O bar do seu Secundino fica em uma esquina, lugar de onde aparentemente ele consegue ver todo o bairro, todas as pessoas que passam o cumprimentam. Chegando ao bar sentei-me e o amigo foi ao banheiro, nessa hora seu Secundino me aborda e pergunta: “onde está o Danilson” e logo lhe respondo: “foi ao banheiro”, continuando a perguntar ele fala: “aonde ele vai se sentar”, na mesa havia quatro cadeiras e de pronto lhe respondi: “sei lá”, foi então que ele olhou para mim e se saiu com essa: “a bunda é dele e a cadeira é minha, ele se senta onda quiser” e falando isso se afastou. O bar do seu Secundino é um refúgio para muitos recifenses de San Martin que gostam de futebol, cerveja e bolinho de bacalhau.
Em Natal muitos são os donos de Bar, que são ou que já foram, tem aqueles que não são mas todo mundo pensa que é, e aqueles que um dia serão.
Quem não se recorda de Pedrinho do Abech Pub Bar, uma figura de descendência árabe, radicado no Beco da Lama, sempre ávido a contar histórias que se tornavam mais interessante não pelo contexto mas, principalmente, pelos cacoetes e pelas caras e bocas que o narrador fazia no esforço de que o ouvinte compreendesse toda a verdade da história.
Seu Nasi era outro árabe radicado no Beco da Lama, esse tinha o seu bar no ponto mais pulsante do coração do beco, a localização exata é na esquina da Coronel Cascudo com o Beco da Lama. Nasi era famoso pela meladinha, mistura de cachaça com limão e mal, que segundo os seus clientes somente ele sabia fazer, pelo seu permanente mal humor, pelas teias de aranha que tinha no bar e pela história de que um dia o grande Pixinguinha havia bebido no lugar. Manelzinho, um desses clientes, certo dia falando sobre Nasi disse que ele era rígido no horário e que todos os dias às nove horas fechava o bar e ia para casa, certa vez alguns clientes que queriam beber um pouco mais atrasaram o relógio, todos atrasaram, e disseram que ainda era cedo, seu Nasi aceitou o argumento pois tratava-se de gente muito idônea, no outro dia foi o maior rebuliço no bar e desde então seu Nasi acreditou tão somente no seu relógio.
Lula Belmont parece que nasceu no Beco da Lama. Foi proprietário do bar Vice e Versa na Rua Vigário Bartolomeu, um dos primeiros espaços ecléticos da cidade, lugar onde a rapaziada alegre se encontrava lá pelos idos dos anos de 1980. Quando Pedrinho decidiu locar o Abech Pub, sito à mesma rua, Lula assumiu o comando e fundou o Bardallo’s até o dia que uma loja de departamentos comprou o antigo Cine Nordeste e ele decidiu continuar a sua aventura de dono de bar no outro lado da rua. O Bardallo’s sempre foi um dos espaços mais bem visitados do Beco da Lama, famoso por lançar bons artistas na cena cultural da cidade e famoso também por ter um proprietário um tanto intolerante com alguns costumes da moçada “underground” da cidade e em especial por ter Lula Belmont instalado um sino que era sempre tocado à meia noite para “expulsar” os boêmios mais afoitos.
Na Rua Coronel Cascudo, nos fundos da casa do ex-presidente Café Filho, aquela de arquitetura em “véu de Noiva”, fica o bar da Nazaré. Lá não se come nem se bebe fiado, nem amanhã, pois o amanhã não existe. Nazaré conhece a cada um dos seus clientes pelo nome, RG e CPF e está sempre narrando fatos que ocorreram em seu bar. Numa oportunidade ela contou a história de um cliente que sempre que tomava algumas cervejas a mais subia nas mesas e começava a dançar, até o dia em que ela se aborreceu e disse que iria quebrar-lhes as pernas caso não descesse imediatamente, segundo ela depois de então nunca mais o sujeito subiu nas mesas.
O adágio popular diz que “filho de peixe, peixinho é”, e esse dito cabe como uma luva quando se trata de dona Nazaré.
Educado no ambiente do bar de dona Nazaré, o seu filho Paulinho, que para ela é sempre Paulo Eduardo, é herdeiro cultural do legado de sua mãe. Fora do bar Paulinho é um rapaz comum, inteligente, esforçado, procura se adaptar profissionalmente às mais variadas modalidade de trabalho. No bar ele é Paulinho, um sujeito sempre atento, quando percebe uma garrafa vazia logo chega trazendo uma cheia, igual à sua mãe ele conhece a todos os clientes, tem uma língua afiada para dar respostas, não espera pelo tempo e sempre tem uma história jocosa para contar. Certa vez para brincar com Paulinho eu indaguei se o picado de carneiro, guloseima servida no Bar da Nazaré, era novo, ele não titubeou e em voz alta respondeu: “é não, faz dois anos que ele está no freezer, se quiser coma se não quiser eu levo de volta”. Pois é, esse é o Paulinho, o futuro dono do bar da Nazaré.
O dono do Bar é esse personagem que encanta a todos que freqüentam esse ambiente, um dos espaços mais democráticos que existe em nossa sociedade, e lugar onde encontramos alguns dos personagens mais interessantes da nossa vida real.