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O dono do bar
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2 de agosto de 2010 | por Enoque Vieira, Historiador, Esp. em Antropologia
e boêmio do Beco da Lama

HÁ ALGUM TEMPO tenho me permitido a observar uma gama variada de cenas em nossa cidade e em outros lugares que tenho oportunidade de conhecer.
Sou daqueles que acredito sim que vivemos em um grande teatro, um mega espetáculo sem direção, sem platéia, sem aplausos... Mas com dramas sofocleanos, se é que podemos assim denominar as experiências de vida real que nós, pobres mortais, vivenciamos cotidianamente, corriqueiramente, sem nem mesmo nos percebermos como integrante do elenco, figurante ou protagonista, do teatro mundano, da vida como ela é.


Em sendo assim,
acho possível acreditar que cada espaço, cada ambiente, exige um comportamento apropriado, uma “encenação”, que consegue transformar o indivíduo, o sujeito comum, em um multifacetado ator social, vivenciando um mundo de máscaras, um mundo de “personas”, onde o sujeito se faz e se refaz a cada momento; em cada espaço de ocupação e em cada “relação cênica”, sendo fruto tão somente do ambiente e do “elenco” com o qual tal sujeito “contracena” com os diversos outros sujeitos existentes.
Tendo a compreensão de que a vida é esse grande teatro, podemos então afirmar que nessa lógica social existe um cem número de personagens, figuras vivas que se tornam imortais, que são talhadas na própria vivência e que incorporam o personagem como sendo ele próprio, em outras palavras, pessoas que fazem do seu personagem o seu próprio ser.

Uma das figuras que, com o passar do tempo, tenho percebido a sua existência nesse amplo e especioso cotidiano é o dono do bar.

Todas as pessoas que costumam freqüentar bares, em especial, os barzinhos populares, aqueles que estão situados na periferia ou nos becos e vielas da cidade antiga, lugar aonde geralmente se encontra os melhores amigos de mesa de bar, as conversas mais inteligentes mesmo que seja sobre questões de pouca relevância, a cerveja mais gostosa que nem sempre é a mais gelada, o tira gosto mais saboroso com gosto de memória gustativa, costumam se deparar com esse personagem: o dono do bar.

O dono do bar é sempre um sujeito peculiar, ele se destaca do montante das outras figuras. No bar ele é o protagonista da cena, e por ser a figura central naquele espaço é natural que entendamos o dono do bar como sendo o principal ator social daquele espaço definido como sendo o bar.

O dono do bar é sempre muito bem humorado, ou o inverso, muito mal humorado. Na maioria das vezes é engraçado, gosta de contar histórias anedóticas que geralmente são histórias fatídicas de algum cliente seu que por ventura não está ali no momento exato em que a narrativa está sendo feita. Tem sempre a cerveja mais gelada da praça e quando percebe que o cliente que acabou de chegar havia bebido pouco traz para a mesa aquela garrafa “mofada” ou “nevada” como queira o leitor. Sempre tem tira gosto mesmo que seja um pedaço de mortadela, um ovo cozido colorido com Q’suco ou o último caldo guardado na panela que sempre estava à espera daquele cliente, caldo esse que sempre  sai aguado.

Alguns donos de bar se tornaram personagens de vulto e para falar sobre essa figura torna-se necessário que falemos primeiro no espaço.

Recentemente ao folhear a revista Carta Capital deparei-me com o famoso Bip bip, barzinho localizado no bairro de Copacabana e fundado há quarenta anos. O Bip bip tem uma clientela especial, nada mais nada menos do que a nata do samba e do chorinho carioca, e, claro, tem um dono que é o Alfredo. Sujeito mal humorado que está sempre pedindo silêncio à sua clientela e que fica tão somente sentado próximo a duas bacias que usa como caixa ou porta dinheiro, no bar as pessoas que se servem e quase nunca tem o que comer.

Em visita à cidade do Recife um amigo me convidou a ir para o bairro de San Martin e me levou ao bar do seu Secundino, um português radicado no Brasil que ama Recife, mas ama ainda mais San Martin, é Secundino porque é o segundo filho de uma família de muitos filhos. O bar do seu Secundino fica em uma esquina, lugar de onde aparentemente ele consegue ver todo o bairro, todas as pessoas que passam o cumprimentam. Chegando ao bar sentei-me e o amigo foi ao banheiro, nessa hora seu Secundino me aborda e pergunta: “onde está o Danilson” e logo lhe respondo: “foi ao banheiro”, continuando a perguntar ele fala: “aonde ele vai se sentar”, na mesa havia quatro cadeiras e de pronto lhe respondi: “sei lá”, foi então que ele olhou para mim e se saiu com essa: “a bunda é dele e a cadeira é minha, ele se senta onda quiser” e falando isso se afastou. O bar do seu Secundino é um refúgio para muitos recifenses de San Martin que gostam de futebol, cerveja e bolinho de bacalhau.

Em Natal muitos são os donos de Bar, que são ou que já foram, tem aqueles que não são mas todo mundo pensa que é, e aqueles que um dia serão.

Quem não se recorda de Pedrinho do Abech Pub Bar, uma figura de descendência árabe, radicado no Beco da Lama, sempre ávido a contar histórias que se tornavam mais interessante não pelo contexto mas, principalmente, pelos cacoetes e pelas caras e bocas que o narrador fazia no esforço de que o ouvinte compreendesse toda a verdade da história.

Seu Nasi era outro árabe radicado no Beco da Lama, esse tinha o seu bar no ponto mais pulsante do coração do beco, a localização exata é na esquina da Coronel Cascudo com o Beco da Lama. Nasi era famoso pela meladinha, mistura de cachaça com limão e mal, que segundo os seus clientes somente ele sabia fazer, pelo seu permanente mal humor, pelas teias de aranha que tinha no bar e pela história de que um dia o grande Pixinguinha havia bebido no lugar. Manelzinho, um desses clientes, certo dia falando sobre Nasi disse que ele era rígido no horário e que todos os dias às nove horas fechava o bar e ia para casa, certa vez alguns clientes que queriam beber um pouco mais atrasaram o relógio, todos atrasaram, e disseram que ainda era cedo, seu Nasi aceitou o argumento pois tratava-se de gente muito idônea, no outro dia foi o maior rebuliço no bar e desde então seu Nasi acreditou tão somente no seu relógio.

Lula Belmont parece que nasceu no Beco da Lama. Foi proprietário do bar Vice e Versa na Rua Vigário Bartolomeu, um dos primeiros espaços ecléticos da cidade, lugar onde a rapaziada alegre se encontrava lá pelos idos dos anos de 1980. Quando Pedrinho decidiu locar o Abech Pub, sito à mesma rua, Lula assumiu o comando e fundou o Bardallo’s até o dia que uma loja de departamentos comprou o antigo Cine Nordeste e ele decidiu continuar a sua aventura de dono de bar no outro lado da rua. O Bardallo’s sempre foi um dos espaços mais bem visitados do Beco da Lama, famoso por lançar bons artistas na cena cultural da cidade e famoso também por ter um proprietário um tanto intolerante com alguns costumes da moçada “underground” da cidade e em especial por ter Lula Belmont instalado um sino que era sempre tocado à meia noite para “expulsar” os boêmios mais afoitos.

Na Rua Coronel Cascudo, nos fundos da casa do ex-presidente Café Filho, aquela de arquitetura em “véu de Noiva”, fica o bar da Nazaré. Lá não se come nem se bebe fiado, nem amanhã, pois o amanhã não existe. Nazaré conhece a cada um dos seus clientes pelo nome, RG e CPF e está sempre narrando fatos que ocorreram em seu bar. Numa oportunidade ela contou a história de um cliente que sempre que tomava algumas cervejas a mais subia nas mesas e começava a dançar, até o dia em que ela se aborreceu e disse que iria quebrar-lhes as pernas caso não descesse imediatamente, segundo ela depois de então nunca mais o sujeito subiu nas mesas.   
O adágio popular diz que “filho de peixe, peixinho é”, e esse dito cabe como uma luva quando se trata de dona Nazaré.

Educado no ambiente do bar de dona Nazaré, o seu filho Paulinho, que para ela é sempre Paulo Eduardo, é herdeiro cultural do legado de sua mãe. Fora do bar Paulinho é um rapaz comum, inteligente, esforçado, procura se adaptar profissionalmente às mais variadas modalidade de trabalho. No bar ele é Paulinho, um sujeito sempre atento, quando percebe uma garrafa vazia logo chega trazendo uma cheia, igual à sua mãe ele conhece a todos os clientes, tem uma língua afiada para dar respostas, não espera pelo tempo e sempre tem uma história jocosa para contar. Certa vez para brincar com Paulinho eu indaguei se o picado de carneiro, guloseima servida no Bar da Nazaré, era novo, ele não titubeou e em voz alta respondeu: “é não, faz dois anos que ele está no freezer, se quiser coma se não quiser eu levo de volta”. Pois é, esse é o Paulinho, o futuro dono do bar da Nazaré.

O dono do Bar é esse personagem que encanta a todos que freqüentam esse ambiente, um dos espaços mais democráticos que existe em nossa sociedade, e lugar onde encontramos alguns dos personagens mais interessantes da nossa vida real.

OPINIÃO.......................................................................................................................................
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