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21 de agosto de 2010 | por Rogério Marques e Bruno Rebouças
LUCIANO CAPISTRANO é professor de História da rede estadual e historiador da Semurb. Ele é autor do livro O Golpe Militar no RN e os Norte-rio-grandenses mortos e desaparecidos - 1969/1973, que tem selo editorial do Sebo Vermelho. Adquira o seu e ajude a divulgar a verdadeira história do nosso Estado e do nosso país. Veja entrevista com o autor.
{Como surgiu a idéia de fazer o livro?
Luciano - A idéia foi já no final do curso de Historia, na graduação, em 2001. Não do livro, mas da pesquisa. É uma temática que eu sempre gostei, até mesmo por que eu convivi em casa com essa situação. Papai, em 1964, era funcionário público dos Correios, aí foi perseguido. Eu lembro, quando criança, papai tinha umas viagens que fazia e eu não sabia o porque, até gostava, por que quando ele chegava trazia uma lembrança e tal. Depois eu descobri que essas viagens era porque ele ia à Recife pra responder o inquérito policial militar. Ele falava das figuras que conheceu, como Luiz Maranhão, Iran Pereira, pessoas que ele tinha contato. Então, é um tema que eu sempre pensei em estudar. Agora, a idéia da publicação surgiu recentemente, numa conversa com Roberto Monte, que falou sobre Emanuel Bezerra, Natalia Alves, e duas amigas professoras de Historia ficaram espantadas, como se Roberto Monte estive falando de uma coisa nova, de hoje. Aí veio a idéia da publicação. Mostrei o texto a Roberto Monte e Abmael, do Sebo Vermelho, aí veio a idéia mesmo da gente publicar pra ter esse trabalho divulgado e as pessoas pudessem conhecer um pouco essa época.
Uma ruptura que aconteceu no processo democrático que o Brasil vivia a partir do governo João Goulart. No RN, tínhamos uma perspectiva muito boa através da liderança de Djalma Maranhão e Luiz Maranhão, e de outros, como Cesário, lá de Mossoró, que era uma grande liderança sindical. Então, você tinha na década de sessenta uma possibilidade de administrações populares, democráticas, que foram interrompidas pelo golpe militar. O pior disso, que eu acho que foi o período mais crucial dessa época, é o período que eu retrato na pesquisa, que é de 1969 a 1973. Um período da ditadura sem disfarce, onde a prática policial foi além do aparato jurídico, que já era autoritário. As organizações militares envolvidas na perseguição política, os agentes da polícia política, agiam além desse aparato legal, mostrando sua crueldade, matando, criando versões falsas.
A fase mais violenta da ditadura militar foi no período Médici, né?
Luciano - O livro faz essa contextualização do período. Pega a questão internacional, a guerra fria, a disputa da União Soviética e os Estados Unidos pela hegemonia do mundo, divisão do mundo em áreas de influência. É nesse contexto que aflora em nosso continente sul americano as ditaduras militares, quer dizer, um a um os governos populares foram sendo derrubados.
A direita tem a Argentina como exemplo de uma ditadura forte e massacrante, mas esquece que lá eles julgaram a maioria dos mandantes e torturadores, além dos arquivos estarem abertos. O Frei Beto, em artigo na Caros Amigos, disse que o STF matou pela segunda vez Vladimir Herzog, quando confirmou a anistia total e irrestrita para os torturadores. Fale sobre essa questão.
Luciano - Você falou uma coisa interessante. Para nós, historiadores, existe uma disputa na sociedade pela questão da memória. A memória é uma questão central e até de poder mesmo. Então, o que acontece? A elite brasileira tenta guardar na memória aquilo que é bom para eles se manterem no poder, no Estado. No Brasil, diferentemente da Argentina, não ocorreu algo que é importante, que é a abertura dos arquivos, os processos contra os torturadores. No Brasil, aconteceu uma coisa que foi a conciliação, que não levou em conta as pessoas que sofreram, foram agredidas, torturadas ou mortas. Quando você cita Frei Beto, em relação ao segundo assassinato de Vladimir Herzog, é corretíssimo, porque o que a gente percebe é isso, enterrou a história debaixo do tapete.
É preciso e, tenho certeza, que se a sociedade brasileira tivesse acesso aos arquivos e aos fatos que aconteceram nesse período, nós teríamos outro tipo de organização.
É, sim, muito necessário que se retome a construção dessa história, desse passado, porque não podemos deixá-lo enterrado. Não podemos fazer o papel dessa elite, que ao longo da história se mantém no poder.
E volto a falar, no Brasil não há rupturas. Quando a gente estuda a implantação do regime republicano no Brasil, quem eram os nossos republicanos? Quem foram nossos primeiros presidentes da República? Foram monarquistas. Aqui mesmo, em nosso Estado, a oligarquia Albuquerque Maranhão, começando por Pedro Velho, que trás para o governo provincial elementos da monarquia do antigo regime. Então, no Brasil não há uma ruptura. No caso específico dos governos militares, vivemos um processo de democratização que foi importante, mas organizado pelos militares. A lei de anistia foi importante? Foi. Trouxe de volta pessoas que estavam exiladas, que eram importantes e deviam estar aqui para reconstruir a nossa vida política. Mas esse processo ainda precisa avançar. Por exemplo, a justiça brasileira diz não ao julgamento dos torturadores. Na verdade, ela está expressando o que existe, ainda, em continuidade a esse processo. Então, é isso que nós precisamos trazer para o debate.
{Por que a questão da memória é fundamental?
Luciano - Vou dar um exemplo aqui do nosso Estado. Djalma Maranhão é uma figura importantíssima na nossa história recente. Ele marca um início da construção de uma administração democrática. Djalma Maranhão ficou conhecido como o prefeito da campanha De pé no chão também se aprender a ler. Era um grande administrador, colocando as contas da prefeitura em dia, coisa que é muito difícil e importante de ser feita. Foi cassado, com a família sem muitos recursos. Mas veja só a questão da nossa memória. Há dois anos, se não me engano, a residência de Djalma Maranhão, na rua Jundiaí, foi vendida pelos herdeiros. O novo proprietário fez um estacionamento. Porém, existia o processo de tombamento da casa. O pessoal dos Direitos Humanos, da Anistia, entrou com o pedido de tombamento desse prédio. A ideia era tombar e fazer daquele prédio um memorial para o ex-prefeito Djalma Maranhão, que foi importante para a cidade. Até hoje gerações mais antigas lembram do prefeito das praças, das áreas de lazer, das bibliotecas populares e tantas outras coisas. Se você for à casa, hoje, verá um vão, talvez de 1,5 metro, que não dá nem para colocar uma foto do prefeito. O restante da casa foi abaixo para se fazer um estacionamento. Na praça André de Albuquerque, Djalma deixou uma galeria de artes. Uma das primeiras medidas do regime militar foi derrubar a galeria, não para embelezar a praça. Na verdade, demoliram a galeria de arte por que derrubando ela você apagaria da memória um pouco da administração Djalma Maranhão.
{José Sarney foi um dos principais aliados da ditadura militar, do início ao fim da ditadura. No final, ainda sai como Presidente da República com a morte de Tancredo. Estamos vivendo a comprovação daquilo que você falou, que não houve ruptura. Houveram mudanças importantes, não há como negar, mas setores que contribuíram imensamente para o golpe militar continuam governando, com toda a pompa. Recentemente, todos os processos, comprovados, contra Sarney foram arquivados. E o cara continua no trono. Ele já venceu quatro campanhas seguidas pro senado. Ou seja, 32 anos. Vamos ter que aquentá-lo até ele morrer?
Luciano - Isso é um retrato da nossa democracia. Por isso precisamos aprofundar esse processo. Acho que a sociedade brasileira tem que cada vez mais se organizar e lutar por uma democracia em construção. Acho que o Brasil ainda está nesse processo de democracia em construção.
{Pra finalizar, manda um recado para os mais jovens, que não viveram essa história.
Luciano - Pra juventude vou dizer uma coisa que sempre digo aos meus alunos. A nossa ferramenta fundamental é o conhecimento. O conhecimento adquirido através de leitura, de pesquisas. É preciso ir além das aulas, do livro didático, é preciso ir além das aparências. Precisamos cada vez mais entender o nosso mundo. O mundo que nós vivemos hoje. Entender porque numa blitz policial pegam o filho de um trabalhador, prende, tortura, às vezes até mata. Eu diria para a juventude: vamos conhecer o nosso passado e as figuras que foram tão importantes para nossa história na construção do hoje.
Nota da redação - A ditadura argentina foi muito sanguinária, durou menos tempo e matou mais gente que no Brasil. Porém, o governo Nestor Kirchner deu início aos julgamentos dos torturadores e mandantes, o que continua ocorrendo no atual governo. Mais de 500 pessoas foram indiciadas, entre generais, almirantes e brigadeiros, além daqueles que cometeram diretamente torturas e mortes. Já foram condenados mais 300 pessoas, entre elas um general com mais de 80 anos. A atual presidente, Cristina Kirchner, declarou, ano passado, que iria para a corte internacional caso a justiça argentina não acelerasse os processos para lavar o sangue que foi derramado.
No Brasil, o governo aposta no esquecimento.
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