Natal, cidade quatrocentona, nascida no contexto da União Ibérica,
sobre as ordens de Felipe II. Fundada pelos colonizadores no dia 25 de
dezembro de 1599, no alto onde hoje é a praça André de Albuquerque. Nasceu
cidade, sem passar pelo estágio de vila, por muito tempo conviveu com o
trocadilho: “ cidade do Natal, não-há-tal.Palco do encontro de civilizações: a
portuguesa, a holandesa, a francesa e a africana com os índios potiguaras. A
cidade, com o testemunho do Potengi, transformou-se a partir da ação deste
núcleo formador no, hoje, povo natalense.
Como conhecer então o passado desta cidade?
Podemos iniciar pelo Patrimônio de “pedra e cal”, procurando na nossa
arquitetura, sinais da ocupação e evolução deste chão chamado Natal.
Encontramos diversos significados, representados em edificações antigas e
novas, como o Forte dos Reis Magos e a Ponte de Todos Newton Navarro. Ao
olhar nossa história através destes monumentos descobrimos, entre pedra e
cal, muito do contexto histórico em que essas edificações foram inseridas.
Mas a história de uma cidade vai além da sua arquitetura, sua alma está
em seus becos, vielas e ruas, ou melhor dizendo, seu espírito está em sua
gente, seu povo, homens e mulheres, construtores sociais. Como nos ensina o
poeta Ferreira Gullar: “...a história está nas esquinas, ruas, quintais, ...” no
cotidiano. É então o fazer e agir de homens e mulheres que constrói a urbe,
seu traçado tem a digital de seus habitantes. Neste sentido, é fundamental, não
olharmos a Cidade do Natal apenas através dos seus monumentos,
busquemos o corriqueiro, o pequeno gesto, que faz o cidadão ter o sentido de
pertença à humanidade.
Como exemplo lembremos das figuras populares, pessoas com
características bem peculiares, trazendo no seu jeito de interagir com o mundo
um pouco da sociedade e seus costumes em determinadas épocas. Um destes
personagens é Béiete. Conheci Béiete quando em um dos sebos da cidade
encontrei o livro de João Amorim Guimarães, Natal do meu tempo, edição
organizada pelo professor Humberto Hermenegildo. Béiete, nas palavras de
Guimarães, “era um camarada meio amalucado, imbecializado, que vivia a
implorar a caridade pública...”. A Natal de 1920, época de Béiete, tinha no seu
calendário festivo o dia 3 de maio como dia da Santa Cruz da Bica, festa
popular que surgiu a margem da igreja católica e aos poucos transformou-se
num dos maiores eventos católicos da natal do inicio século passado.
Pois bem, vejam a astúcia deste personagem, Béiete sabia da existência
de um “cofre” na pracinha da Santa Cruz da Bica, onde os fiéis depositavam
seus donativos. O “cofre” estava sempre cheio, esperando a hora dos
encarregados recolherem as contribuições dos devotos. Béiete como um gênio
resolveu jogar baralho com a Santa, pois não suportava mais a vida de pedinte
e como cristão tinha de ganhar seu sustento de forma honesta. Nos relata
Guimarães, que por muito tempo o “imbecilizado” Béiete ia todos os dias a
pracinha da Santa Cruz da Bica e lá chegando logo dizia:
- Bom dia, minha Divina Santa Cruz.
- Bom dia Béiete – Respondia ele com a voz mudada.
- Minha Divina, eu tenho um baralho, vamos jogar uma biscazinha?...
- Vamos Béiete. Eu até gosto de um joguinho.
A Santa, coitada, não ganhava uma partida pelo amor de Deus. Béiete
era só alegria, embolsando todo o dinheiro doado a Santa. Quando foi pego em
flagrante, saiu com esta perola:
- Ora... se ela era quem me chamava pra jogar. Ela perde porque é
caipora...
Pois é olhemos, a história além da pedra e cal.
Quantos Béietes não fazem parte da história de Natal?
Fonte: GUIMARÃES, João Amorim. Natal do meu tempo: crônica da cidade
do Natal. Natal: FIERN-SESI, 1999. ( Organização, introdução e notas:
Humberto Hermenegildo de Araújo).
Luciano Fábio Dantas Capistrano – Historiador/SEMURB
Professor/Esc.Est. Myriam Coeli
OPINIÃO.......................................................................................................................................
|
|