TENDÊNCIAS DE ESQUERDA NO BRASIL
17 DE JANEIRO DE 2012 | por Coletivo Foque
A partir de hoje o Coletivo Foque inicia uma série de entrevistas sobre TENDÊNCIAS DE ESQUERDA NO BRASIL. O nosso primeiro entrevistado é o jornalista JOSÉ REBOUÇAS. Militante da FRAÇÃO TROTSKISTA, Rebouças é coordenador de Comunicação do Sindicato Estadual dos Trabalhadores em Educação do Ensino Superior (Sintest/RN).
Pra começar, faz uma análise das tendências de esquerda no Brasil.
A ORGANIZAÇÃO das tendências politicas de esquerda no Brasil ocorrem antes do golpe militar e pós-golpe militar. A partir de 1985 houve uma reorganização dessas tendências politicas partidárias e sindicais no Brasil, na medida em que esses militantes deixaram de ser clandestinos. Retornaram o PCdoB, o PCB e deu-se início à construção do PT, que era uma frente ampla no início da década de 1980. O Partido dos Trabalhadores foi quem mais evidenciou a política dessas correntes de esquerda, que partiu da Primeira Internacional, militantes e participantes da Segunda Internacional, da Terceira stalinista, como da Quarta Internacional trotskista. Durante mais de 30 anos essas organizações construíram a luta dos trabalhadores.
Com a chegada do Partido dos Trabalhadores ao governo, e não ao poder, algumas tendências de esquerda se adaptaram totalmente ao regime político, como o PCdoB, o PCB e mais de dez tendências internas ao PT. Outras romperam ou foram até expulsas, como PSTU, PSOL e organizações que não são reconhecidas no Tribunal Superior Eleitoral.
Você é militante de uma tendência de esquerda, então, fala sobre essa corrente política.
DESDE o inicio da década de 1980 que eu sou simpatizante da Quarta Internacional trotskista. Tínhamos como guarda-chuva a Convergência Socialista, que era uma tendência do PT.
A Convergência Socialista e outras tendências quarto internacionalistas foram expulsas do partido. Esse setor da Quarta Internacional, que também tem outras tendências, como a Liga Internacional dos Trabalhadores (LIT) e Comitê de Enlace, se reorganizou. Em Natal, fundamos a Fração Trotskista. Da Quarta Internacional também foi organizado o PSTU, que é ligado à LIT, que tem sua matriz ideológica na Argentina, Bolívia, Peru, através do seu teórico principal que foi Nahuel Moreno, falecido em 1987. O Comitê de Enlace, que tem no Brasil a Fração Trotskista, é de outra matriz ideológica.
Outros setores resistiram sair do PT e se adaptaram até onde puderam. No inicio da década de 2000, romperam e fundaram o PSOL, que hoje tem em torno de oito tendências. Agora, ainda não existe uma definição ideológica por uma Internacional Socialista. Alguns setores, como o de Luciana Genro (RS), tem uma aproximação com a Quarta Internacional, mas não faz parte. O restantes das tendências do PSOL ainda estão muito diluídas, procurando uma matriz ideológica.
Nesse contexto programático e político nós levantamos a bandeira de luta dos trabalhadores, como as greves, oposição ao governo Dilma, a denuncia do parlamento e do executivo e procuramos a construção programática do socialismo.
Qual o caminho para alcançar, de fato, o socialismo?
PARA nós, trotskistas, é pela via da revolução socialista, a tomada do poder político. Nós disputamos as eleições, mas não alimentamos as ilusões nos trabalhadores que através das eleições vamos chegar ao poder político. O PT não chegou ao poder político, chegou ao governo junto com a burguesia. Defendemos a revolução permanente que está nos postulados filosóficos de Marx e de Trotski. Atuamos nas frentes de luta, como os sindicatos, as greves, no programa economicista para elevar os trabalhadores da consciência mínima à máxima. Porque, para nós, só a tomada do poder político, não pela via eleitoral, mas pela via da insurreição das massas, é que iremos libertar os trabalhadores, como aconteceu em 1917, na Rússia.
Quais as atividades que a Fração Trotskista desenvolve concretamente na construção da revolução socialista.
Na atualidade a Fração Trotskista no RN se diluiu. Estamos mais no campo das ideias. Enquanto isso, nós fazemos frente com outras organizações que tem programas muito próximos ao nosso, como no caso do Movimento de Esquerda Socialista (MES).
A Fração Trotskista almeja se transformar numa organização reconhecida, como Partido Político?
NÃO, porque no momento em que nos reconhecermos estaremos entregando todos os militantes à burguesia. Uma das táticas da Internacional é ser sempre clandestina. Então, nós não disputamos eleições. Agora, se existe algum partido com um programa muito próximo, podemos desenvolver uma prática chamada de entrismo, que utiliza o partido como um guarda-chuva, num determinado momento muito curto, para disputar uma determinada eleição.
Um recado para possíveis simpatizantes da Quarta Internacional.
PARTICIPAR das lutas, das greves, das ocupações dos trabalhadores. Passar o veículo de comunicação, como Lênin já dizia, no livro Que Fazer, sobre a importância do jornal. Cotizar, por que a luta deve ser financiada pelos próprios trabalhadores. Construir a luta junto com os trabalhadores no enfrentamento diário contra os inimigos de classe, a burguesia e seus governos de plantão.
Já que você falou do Lênin, que apontava o jornal como uma ferramenta fundamental para ajudar na construção da revolução, fala um pouco sobre essa questão da imprensa alternativa.
A MÍDIA sindical é fundamental na disputa da hegemonia. Existem os jornais e os veículos de comunicação da burguesia contrainformando e mentido para os trabalhadores. É preciso que nós tenhamos os nossos jornais, nossa mídia, para fazer essa disputa da hegemonia com a burguesia e informar a classe trabalhadora. |