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Entrevista: Rostand Medeiros
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14 de maio de 2010 | Entrevista concedida a Rogério Marques e Bruno Rebouças

Tudo começou em 1997, quando Rostand Medeiros e amigos passaram a fazer uma pesquisa sobre o patrimônio espeleológico do RN, a partir da SEP (Sociedade Espeleológica Potiguar), ONG fundada pelo grupo.
O SEBRAE, que estava organizando um projeto de turismo ecológico pelos Caminhos de Lampião no RN, apostou na idéia de Rostand, que percorreu 18 municípios, desde Luís Gomes a Mossoró, para registrar os lugares por onde passaram lampião e seu bando. “Chamaram-nos para trazer um novo enfoque para a pesquisa, dentro do turismo ecológico. Descobrimos com os mateiros que o povo se escondeu nas cavernas quando Lampião passou”, explica Rostand, que é membro da Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço.

Somos um grupo de amigos que não queria passar o fim de semana em Natal, aí ia procurar cavernas. É uma paixão, devoção, hobbie”

 

E M B A T E S

De acordo com a Lei, 250 metros ao redor de uma caverna é considerada área de preservação permanente. Ela tem o mesmo padrão de preservação que possui a pintura rupestre. Você não pode chegar lá e arrancar uma pedra que tenha uma pintura, isso é um crime monstruoso. E a caverna possui essa questão.

Segundo Rostand, em 2005 a Petrobrás, com anuência do IBAMA, que deveria proteger o meio ambiente, autorizou uma perfuração a menos de 250 metros de uma caverna em Felipe Guerra, no distrito de Passagem Funda. Nunca fui contrário ao desenvolvimento, nem a empresas como Petrobrás, mas ela não pode agredir o meio ambiente. O caso foi levado ao Ministério Público, “mas as coisas não andaram.

SEGUINDO OS PASSOS  DE LAMPIÃO

Rostand afirma que já passaram 83 anos daqueles fatos. O bando de Lampião entrou no RN em 10 de junho de 1927, pela cidade de Luís Gomes. A partir daí, seguiu o trajeto que hoje compõe Luís Gomes, Major Sales, Paraná, Tenente Ananias, Marcelino Vieira, Pilões. Aí eles foram subindo para Antonio Martins.

Nos depoimentos qual a visão que as pessoas têm de lampião?

Rostand Medeiros Para a maioria das pessoas Lampião não era tão ruim. Ruim era os outros. A visão de quem conviveu ou viu era de um homem bom, que lutava por vingança, devido à morte dos pais por policiais. Tem gente que diz que o cangaceiro era um bandido. Eu fico pensando, Se eram só bandidos, por que aquela roupa? Se fosse só para matar e roubar para que aquela identidade? Amigo, numa boa, a roupa de cangaceiro era comparável a roupa de um samurai. Não em termos de antiguidade e potencia. Mas em termos de identidade enquanto grupo.

AULA DE HISTÓRIA

Em 1927, Lampião estava sofrendo uma perseguição violenta, principalmente das polícias pernambucana e paraibana. Em 1926, ele já tinha recebido o apoio de Padre Cícero no Ceará. Já tinha recebido a patente de Capitão. Padre Cícero era uma grande liderança e tinha apoio de um político chamado Floro Bartolomeu, que fez a ponte com o governo federal para criarem os batalhões patrióticos. Floro Bartolomeu teve a idéia maluca de chamar Lampião para dar um ‘pau’ nos caras da Coluna Prestes, já que as forças legalistas não conseguiram. Aí acontece um encontro marcante entre duas figuras fortes do nordeste: Lampião e Padre Cícero, cara a cara. Padre Cícero dá salvo conduto, farda e armamento para Lampião.

 

Chamaram o único funcionário público federal que existia em Juazeiro, era do Ministério da Agricultura. Um cidadão chamado Uchoa. Aí disseram: – Rapaz, você vai assinar aqui a patente de capitão para Virgolino e de tenente para o irmão dele. Uchoa responde: – Mas eu não posso assinar isso. Depois de um tempo, perguntaram porquê ele assinou. Uchoa respondeu: Meu amigo! Naquela noite eu assinava até a deposição de Artur Bernardes (presidente da República de 1922-1926, famoso por governar em estado de sítio permanente).

 

O CANGACEIRO MASSILON

Isaias Arruda, fazendeiro da cidade cearense de Aurora, protegia e mantinha um cangaceiro paraibano da região de Pombal, erradicado em Luís Gomes (RN). Esse cangaceiro se chamava Massilon (Benevides Leite), que antes de ser cangaceiro andara toda a região como vendedor. O que aconteceu foi que Massilon atacou Umarizal, Itaú e Apodi, cidades do RN, e conseguiu a quantia de 60 contos de réis, uma verdadeira fortuna, em dois dias, sem trocar, praticamente, nenhum tiro com a polícia. A forma do saque impressionou todo mundo, inclusive Lampião. Isaias Arruda chamou Lampião e Massilon e combinam para juntar as forças em uma ação mais forte e pesada: atacar Mossoró, que já era uma cidade grande, com quase 30 mil habitantes, pouco menor que Natal. Tinha Receita Federal, Banco do Brasil, várias repartições, um comércio forte. A questão do algodão era toda centralizada em Mossoró. Massilon conhecia a região. Lampião tinha um grupo que beirava mais ou menos 30 ou 40 homens. Aí começou a juntar o grupo de Massilon, Sabino e outros grupos. No total dava mais ou menos 70 homens. Há controvérsias. Uns dizem que era cento e tanto; outros dizem que era 50. Eu acredito que o número fique entre sessenta e setenta.

Eles saíram de Aurora (CE) e a ideia de Lampião era não haver problema. Do Ceará, quando passa para a Paraíba, começa os problemas com Massilon, num lugar chamado Bonito de Santa Fé. Ele mata logo o delegado, de quem não gostava. Aí os outros começaram a matar, roubar, invadir casas. Lampião desejava que a turma seguisse quietinha para cair em cima de Mossoró.

Com a pesquisa campal, a figura de Massilon surge como sendo uma das mais importantes neste episódio, por conta das amizades que fez como vendedor, evitando assim muitos conflitos.

SEQUESTRO

Os cangaceiros foram os primeiros a criar a figura do sequestro no Rio Grande do Norte. Sequestraram Dona Maria Lopes, cujo marido, Zé Lopes, era muito amarrado (pão duro). Lampião foi atrás dele e disse: - Olhe estou seqüestrando sua mulher por 40 contos. O Velho respondeu: - ela não vale 39 conto, quanto mais 40. Isso até hoje o povo diz por lá. O povo diz que ele era muito rico, mas quando morreu se enterrou numa rede, para não gastar dinheiro.

CHUVA DE BALA. NEM TANTO.

As pessoas que moram pelos caminhos que Lampião passou desconhecem a importância dessa história. Tudo se concentra em Mossoró. Eu trabalhei no instituto Rampa, da Aeronáutica, e tive contato com muitos militares de carreira. No contato com os militares eu narrava para eles o ataque de Lampião a Mossoró e perguntava sobre o que é isso em termos militares. Eles respondiam: Isso é o que a gente chama de contato. Não chega nem a ser uma batalha. O conflito de Lampião com Mossoró durou de 45 minutos à uma hora. Não foi um estardalhaço. Eu não tenho nada contra Chuva de balas no país de Mossoró. Pelo contrário. Eu acho Fantástico. Eu admiro muito o mossoroense pegar essa coisa, relativamente simples, e transformar numa referência da cidade. Isso é fantástico. Acho que Natal poderia aprender com esta ação.

Pela sua pesquisa, existe na Chuva de bala no país de Mossoró alguma contradição, algum exagero?

Rostand Medeiros: Sempre tem, mas nada demais. Acho que cada cidade tem que buscar sua identidade. O mossoroense vê muito essa coisa da resistência, que foi muito importante. A figura do Rodolfo Fernandes conclamando o povo a lutar, do mais rico ao mais pobre. Isso é fantástico. Após ter percorrido esse caminho, defendo que outras cidades também valorizem esse processo.


LIVROS SOBRE O ASSUNTO

Acho que eles deixaram de focar alguns pontos interessantes que ocorreram no caminho. Mas é importante ressaltar que os primeiros livros, de Raimundo Nonato, Lampião em Mossoró (1956), e A Marcha de Lampião - Assalto a Mossoró, de Raul Fernandes (1978), focaram, principalmente, a parte do ataque. No caminho eles focaram, principalmente, dois pontos. O combate da Caiçara e o ataque de Lampião a hoje cidade de Antonio Martins, antiga Vila de Boa Esperança. O resto foi deixado de lado. Sérgio Dantas, em Lampião no Rio Grande do Norte: história da grande jornada, fez um ótimo ensaio, mas em minha opinião não percorreu totalmente o caminho de Lampião, até poque o seu foque foi outro.

IDENTIDADE

O livro de Raimundo Nonato, A Marcha de Lampião - Assalto a Mossoró, é o divisor de águas do crescimento e fortalecimento de Mossoró: cidade da resistência. Em 1977, um dos sobreviventes comentou no jornal Diário de Natal, que estava chateado por que fazia 50 anos do ataque e ninguém mais se lembrava. Aí vem doutor Raul Fernandes, oftalmologista, médico de renome, filho de Rodolfo Fernandes, prefeito de Mossoró naquela época, lança um livro que mexe com a população. Então, começaram a criar um processo de identidade.

Foi comentado que em Mossoró houve uma Verdun Potiguar (Verdun: batalha ocorrida na Primeira Guerra Mundial, na França, a mais longa e a segunda mais sangrenta, com milhares de mortes). A casa onde eles amarram os cavalos era um sítio chamado Saco. Eu saí caminhando como eles caminharam dali até a Igreja São Francisco de Paula, aquela que é marcada de bala. Dali para lá demorou mais do que o tempo do ataque.

TROCA DE TIROS

O grupo veio e, em um determinado ponto da avenida Alberto Maranhão, eles convergem à esquerda. Passam pela linha do trem e saem atrás da famosa igreja. Vizinho à igreja é o palácio da resistência, antiga casa de Rodolfo Fernandes. Em frente à casa tinha uma barricada. Na torre da igreja tinha outra galera. Esse pessoal soube defender a cidade deles, mas veja bem, você tem um morto, que foi Cocheiro, um gravemente ferido, que era Jararaca, braço direito de Lampião. No meio daquele negócio ninguém prendeu Jararaca. Ele levou dois tiros, caiu vizinho à linha do trem. Anoiteceu. Ele ficou lá e depois saiu andando, atravessou a ponte e foi preso no outro dia. Isso por que um trabalhador da estrada de ferro entrou na cidade, a mando do cangaceiro, para comprar remédios. A polícia desconfiou, apertou este trabalhador e aí prenderam Jararaca.

CURIOSIDADE

Tinha um negro no bando chamado Sabino, homem de confiança de Lampião. Forte, cara de mal. Antes de chegar ao local do tiroteio ele arrombou uma casa e encontrou um dólmã e um espadim que pertencia a alguém que fazia parte da Guarda Nacional. Como se fosse um Napoleão da Caantiga, ele vestiu a farda e saiu desfilando pela cidade. Chega à frente da igreja e fica encarando os caras na torre. Acharam que era a força paraibana que estava por vir. Aí Rodolfo Fernandes ordenou que atirasse.

LAMPIÃO NÃO TROCOU TIRO

Nisso tudo Lampião quase não trocou tiro. Foi para a frente do cemitério, viu o que aconteceu lá na igreja. Falaram para ele que Cocheiro e Jararaca estavam mortos. Ele foi embora. Mossoró cumpriu aquilo a que ela se propôs. Combateu e expulsou Lampião. Agora, o fato conflituoso em si é muito menor do que a proporção que a coisa tomou.

MORRO, MAS NÃO CORRO

Em junho de 1927 saiu uma tropa de Pau dos Ferros para combater o bando. Essa tropa foi de carro, comandada pelo tenente Napoleão Carvalho Agra. Ele juntou o pessoal em três carros e saiu em direção ao bando, que viram os carros de longe, armaram barricadas e abriram fogo contra a tropa da polícia. Um soldado recém incorporado, José Monteiro, disse em Marcelino Vieira: Morro, mas não corro. Morreu. Tive acesso ao laudo cadavérico dele. É chocante.

 

Em 1928, a comunidade do Junco criou uma missa no local da batalha em homenagem ao soldado José Monteiro. A missa ocorre até hoje ocorre, sempre próxima ao dia 10 de junho. A comunidade não esqueceu. O nordestino tem esse lado, da valentia, hombridade, do homem valente. Esse rapaz deveria ser levado, pela polícia militar, ao patamar que ele merece. Por que esse sim foi um herói.

 

Esta é apenas uma pequena entrevista sobre o assunto pesquisado por Rostand Medeiros. O seu livro, Os Caminhos de Lampião no RN, fartamente documentado com depoimentos e registros fotográficos, está a espera de publicação.


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