QUANDO ENTREI NO CINEMA para assistir o segundo filme Tropa de Elite, já esperava a evolução dos palavrões e do ‘pede pra sair’ tão badalado no primeiro filme.
Muito mais que um filme sobre violência ou tráfico de drogas, na cidade do Rio de Janeiro, a película de José Padilha traz a tona algumas verdades obscurecidas por aquilo que o agora Coronel Nascimento chama de ‘sistema’.
Antes do filme começar, uma frase diz que apesar das fortes coincidências com a realidade, o filme é de ficção. Para o público mais atento, Tropa de Elite 2 trás mais que puras coincidências com a realidade. O filme carrega consigo o DNA da verdade. Ou, pelo menos como ela deveria ser contada. O filme de Padilha, estrelado por Vágner Moura, mais maduro e conduzindo o personagem central a uma grande atuação cinematográfica, faz relação direta entre os políticos de tal cidade e as milícias da PM que cobram impostos, no filme chamado de a ‘CPMF das favelas’. Tal imposto serve para proteger os moradores da própria polícia.
Com ares de ficção, para incrementar a história, Tropa de Elite desenrola fatos recentemente ocorridos. Como a morte de um líder do tráfico, no presídio de segurança máxima, Bangu I, em 2006; Ou, a morte de uma jornalista que investigava as milícias e o seu envolvimento no roubo de armas. Em tal fato, há a forte coincidência com a morte do jornalista Tim Lopes, em 2002.
O filme demonstra como funciona a relação PM-Traficantes, Políticos-PM. Padilha retrata aquilo que muitos órgãos independentes denunciam há anos. O fato da polícia ser a coordenadora e receber mesada dos traficantes para não subir o morro, assim como a omissão do poder público, que tem como interesse único os votos dos favelados.
Esse é o ponto chave do filme. A relação do governador do Estado e alguns deputados estaduais, no filme, com os policiais corruptos que faturam alto cobrando a CPMF das favelas e luxando em iates na Baía de Guanabara. Em um dos trechos mais verídicos do filme, o Coronel Nascimento diz que “o voto é a mercadoria mais valiosa”.
Saindo das telas do cinema e vindo à realidade, o voto virou um bem de troca, na qual o candidato com maior poder aquisitivo se elege, comprando em liquidação o voto de milhões de miseráveis. Aproveitadores que só pensam em vencer, em se alimentar e em lucrar. Como bem declarou o vereador Ney Lopes Jr., em entrevista ao Jornal de Hoje, “a disputa eleitoral se transformou em um ‘mercado persa’”, em alusão direta a força do poder econômico, agindo na eleição de candidatos avulsos sem um mínimo de perfil para exercer um mandato público.
Um ponto suave que o filme aborda, e que passa despercebido pelo público, é a relação submissa que alguns órgãos da imprensa têm com os governos e seus agentes. Após o desaparecimento da jornalista que investigava as milícias, o personagem Diogo Fraga, deputado, pede a publicação do assassinato da jornalista ao editor do jornal, onde ela trabalhava. Com um seco: “não temos prova” e, logo em, seguida: “o governo é nosso parceiro”, o editor não publica o fato evidente, finalizando que, apesar de ter morrido trabalhando para o jornal, “cumpria função dela”.
Muito mais que um filme que aborda a força de um batalhão de elite, o poder do tráfico de drogas e sua organização, além de seus tentáculos. Bem como a relação corrupta e submissa que o Estado exerce sobre a criminalidade. Tropa de Elite 2 é um filme moral sobre a realidade brasileira, onde o sistema corrompe, engana, manipula e assassina inocentes, se refazendo a cada dia, visando apenas o interesse daqueles que o dirige. Como finaliza o Coronel Nascimento: “o sistema é f...”. E deve ser pensado e analisado por quem assiste ou assistiu a película.
Tropa de Elite 2 é muito mais que o ‘pede pra sair’, o ‘senhor é um fanfarrão’ ou a incorruptibilidade de um batalhão (único fato que me incomoda no filme, pois não é 100% verdade). Tropa de Elite 2 é a história verdadeira do crime organizado e o sistema político brasileiro, que de tão parecidos, viraram um só.
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