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Tullio Andrade (www.verborragicos.com)

Escreve normalmente sobre literatura e outros temais do cotidiano.

Gramática para o futuro da língua!
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21 de julho de 2010
  |  por Túlio Andrade

Belo slogan para o novo acordo ortográfico não acham?!
Nada disso! Analisando sob as novas regras você não tem como saber se o título deste texto é positivo ou negativo.


COM O NOVO ACORDO o acento diferencial de classe gramatical foi abolido. Assim, você não tem como determinar se na frase acima o termo “para” é uma preposição ou um verbo. Pode não parecer, mas a diferença é enorme. No caso de ser preposição teríamos um significado positivo de que a gramática “trabalha” em prol de um futuro melhor para língua; mas se for um verbo, teríamos uma gramática que se torna um entrave ao futuro do idioma. Mas e aí, como saber? Não tem como. Com o fim do acento diferencial essa confusão será inevitável. Com isso, o que vemos é que o acordo ortográfico está se afastando do objetivo maior da língua: comunicar de forma clara.
Essa reforma está causando uma confusão na cabeça das pessoas. E na verdade, a confusão parece estar também na cabeça de quem criou essas novas regras... Quer um exemplo?! O próprio acento diferencial de classe gramatical, que foi abolido, continua valendo no verbo “pôr”, para diferenciá-lo da preposição “por”. E aí? Qual a justificativa dessa exceção?!

E a coisa não para (sem acento, mas é verbo) por aí... Quando li nos jornais que o hífen finalmente tinha caído dei pulos de alegria. No entanto, o hífen, que sempre (h)infernizou a vida de muita gente, caiu mas não caiu. E se antes já era difícil entender a utilização desse tracinho, agora então nem se fala.

Para se ter uma ideia a regra diz que formações com os advérbios “bem” e “mal” usa-se hífen desde que a palavra seguinte comece por vogal ou “H”, como em “bem-estar” e “mal-humorado”. Nos demais casos o tracinho some e tudo vira uma palavra só. Entretanto, o advérbio “bem”, em alguns casos, não se aglutina com palavras começadas por consoante. Aí é que começa o samba do crioulo doido, porque o correto é escrever “bem-visto”, só que o antônimo disso é diferente. Escreve-se assim: “malvisto”.

Mas a via crucis do hífen não termina aqui.  Outra regra diz que o hífen continua em formações em que o segundo elemento começa pela letra “H”; como “anti-higiênico”, “contra-harmônico”, “super-homem” e “sub-humano”. Opa! Calma aí, esta última está errada. O correto é “subumano”... E você deve estar se perguntando a mesma coisa que eu: “mas o segundo elemento não começa com “H”. Pois é, mas e daí?! Daí que agora é assim mesmo, as regras são oficialmente infringidas pela própria regra... Ou algo assim. Parece confuso? E é mesmo, mas só é porque alterações feitas “de cima para baixo” como agora só trazem confusão para os usuários da língua; pois o curso natural de evolução de um idioma é inverso, parte dos falantes para a gramática. E isso vem acontecendo há séculos... e estava tudo bem até então. Talvez a única alteração que não teve impacto nenhum foi “a volta dos que não foram”: as letras “K”, “Y” e “W”. Afinal, elas nunca saíram do nosso “alfabeto de uso”.

Já a queda do trema, num futuro próximo, vai acabar causando uma infantilização da língua. Não vai tardar estaremos falando “kinkênio”, igual a criança; e não mais “qüinqüênio”. Com a perda da marcação da pronúncia do “U” a tendência é que o fonema dessa letra desapareça na fala. Como deve sumir o segundo “O” da palavra “vôo” depois que ela perdeu o acento. Logo falaremos apenas “vo”.

Não bastasse isso, ainda tiveram a grande ideia de tirar o acento de “ideia”. Pois é, agora os ditongos “ÉU” e “ÓI”, nas paroxítonas, não têm mais acento. Mas cuidado, porque quando eles forem monossílabos tônicos ou estiverem na sílaba tônica das oxítonas o acento continua. Então, o certo é escrever “herói’, embora “heroico” seja escrito sem acento...

Enquanto isso, eu só fico pensando em como fazer para explicar essas mudanças para meus sobrinhos... Acho que o jeito é voltar aos tempos da “decoreba” e, literalmente, apenas decorar um amontoado de palavras que mudaram de grafia, para utilizá-las mesmo sem saber o porquê de se escrever de uma forma e não de outra.
Acho que esse acordo ortográfico vai acabar nos deixando paranóicos... Ops! Desculpa pelo lapso, “paranoico” agora não tem mais acento!


OPINIÃO.......................................................................................................................................
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