Tullio Andrade (www.verborragicos.com)

Escreve normalmente sobre literatura e outros temais do cotidiano.

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Sociedade da informação
que não informa

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14 de junho de 2010
  |  por Túlio Andrade

A INTERNET NÃO É MAIS "NOVA" já faz um tempo. Isso é fato… principalmente para os jornalistas. Mesmo que o repórter não esteja escrevendo para um site ou portal na web, a maioria deles têm acesso à grande rede seja para pesquisa, troca de informações, envio de material para seus editores etc.

Portanto, mesmo aqueles consumidores de notícias que não têm acesso à web são influenciados pelo que está circulando nela. Faça o teste. Passe uma semana sem acessar a internet. Mas sem acessar mesmo, nem e-mail é permitido. Ao final faça uma pesquisa consigo mesmo e acesse um site qualquer de notícias para ver os destaques da semana... Sem medo de errar é possível estimar um percentual bem alto de assuntos que você tomou conhecimento mesmo sem se conectar.

E não se está falando só das notícias que também circularam na TV, Rádio, Jornal e Revista. Até mesmo o vídeo mais acessado da semana no YouTube você (pode até não ter visto) mas sabe qual foi e como foi. Essa é uma forma fácil e simples de comprovar a influência que a internet tem hoje no cotidiano.

E porque isso acontece? Será que foi porque você saiu perguntado aos amigos "Ei, o que tem de novo na net essa semana?". Nada disso. Hoje em qualquer roda de amigos não é preciso nem estimular para se falar de web, esse é um papo natural. Não tem como você ficar de fora. E esse "ficar de fora" é quase impossível em se tratando de um meio jornalístico.

Manter-se informado hoje é sinônimo de estar conectado ao que está “rolando na net” essa semana; ou melhor, hoje... Porque amanhã já é tudo velho. Seja o vídeo de um flash mobe na Bélgica ou o último atentado a bomba na Europa. É tudo notícia velha. Mas... Peraí! Então um flash mobe numa estação de trem tem a mesma importância que as implicações de um atentado terrorista?!

Mas quem liga para implicações?! O que importa é ser o primeiro a noticiar no twitter, blog, facebook, msn etc. Não dá para perder tempo refletindo sobre "implicações", senão pode-se acabar perdendo o próximo "furo". Pode até parecer um romantismo deslocado no tempo, mas o fato é que hoje, seja por culpa do emissor, seja do receptor (ou quem sabe do meio), a informação em seu sentido amplo (que permite ao leitor se inteirar sobre todas as circunstâncias que envolvem o fato noticiado) não é o objetivo maior do leitor na web (nem de alguns “jornalistas”). Pierre Lévy em seu livro Cibercultura classificou os leitores da web em dois grupos: os que têm um objetivo e os que apenas estão dando uma navegada... Como zapeávamos na época do auge da TV.
A maioria dos internautas é o puro navegador, que sabe de tudo, mas não sabe de nada! Nas rodas de amigos ele sabe todas as novidades, às vezes até mesmo antes de todo mundo. Mas... ele pode até ser o primeiro a twittar falando do tal atentado terrorista citado no início deste artigo, mas se alguém perguntar: "E agora? Como vai ficar a situação dos conflitos no Oriente Médio?", ele certamente vai dar de ombros e dizer "quem se importa?!".

Mas e quando esse personagem é um jornalista?! Nos bancos de faculdade é esse tipo de comportamento que se ensina a não ter. O jornalista não é apenas um mero repassador de informação. Contar para alguém o que você ficou sabendo por outras fontes, qualquer um faz, até mesmo a sua vizinha fofoqueira, que não tem diploma de comunicação (STF, só nesses casos é que o diploma é dispensável!). Mas entender a notícia, absorvê-la, interpretá-la e divulgar numa forma acessível e compreensível para a população, ressaltando os pontos importantes e, principalmente, ponderando sobre as suas implicações na sociedade, é uma responsabilidade muito grande.

E com a internet, embora ela tenha sido uma ferramenta revolucionária e indispensável para o jornalismo, o que tem acontecido é que para fidelizar o leitor puramente navegador, as empresas jornalísticas se valem do volume de informações, muitas vezes vazias do ponto de vista reflexivo. A web trouxe a velocidade nas comunicações e com ela um volume gigantesco de informação. Mas "quanto mais informação, mais equivocados ficam os leitores. Criamos uma sociedade com uma consciência sem história, sem passado, voltada para atemporalidade da 'inteligência artificial'. Vivemos a sociedade da informação que não informa, apenas absorve grandes quantidades de dados", (LÉVY, 1999).

A sociedade da informação está nos deixando mais “burros”; pois não se tem tempo de refletir sobre a informação consumida. Não se trata de um motim anti-web, mas um alerta (!), para não acabarmos perdendo o que já possuíamos antes de qualquer tecnologia: a nossa capacidade de refletir sobre nós mesmos...
E se bem me lembro, li certa vez num bom e velho livro de primário que é essa capacidade que nos diferencia dos demais animais.


OPINIÃO.......................................................................................................................................
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