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10 de agosto de 2011 | por Coletivo Foque | Fotos: Rogério Marques


O SOLAR BELA VISTA,no centro de Natal, recebeu a partir desta terça (09/8) a exposição Fragmentos de uma tradição, dos fotógrafos Alex Fernandes e Pablo Pinheiro. São vinte retratos que homenageiam o homem do sertão que veste gibão, perneira, colete, bota, esporas e chapéu de couro para exercer o orgulhoso ofício de vaqueiro.

Olhar firme.
Mãos calejadas pelo manejo do chicote e as pegadas no cangote do boi.
Artista entregue à própria sina.
Assim é o vaqueiro nordestino visitado pelas lentes de Alex e Pablo. Olhar suas fotos dá vontade de fazer poesia.

“Como é que a nossa fotografia tem espaço onde a gente vive? Diante de dilemas como esse a gente percebeu que tinha coisas em comum e por isso começamos uma certa pesquisa coletiva”, disse Pablo durante o papo fotográfico para o Coletivo Foque, que aconteceu na tarde desta quarta-feira (10/8), debaixo de uma das mangueiras do jardim do Solar, lugar preferido para meditar.

A certa pesquisa começa com a chegada do Coletivo Byreçá, que surge “com o objetivo de promover a cultura regional por meio da fotografia.”

“Chegou num ponto em que Alex apresentou uma ideia da gente trabalhar o vaqueiro. Foi topada de imediato. Lembrando que é o vaqueiro tradicional, que vai pro mato pegar o boi e volta.”

O vaqueiro hoje é uma espécie em extinção?

“Rapaz, ele tem estado em fase de sumiço, nas eu não acho que ele está extinto. Pode estar em processo de extinção, sim. Agora existem regiões que eu acho que vão ser muito difíceis de deixar de existir. Por quê? A cultura é muito forte e, assim como outras regiões do Brasil, a cultura de um vaqueiro foi preservada. Há um ponto em que não se tem as mesmas necessidades econômicas pra que ele exista, mas é mantido, mesmo assim, por uma valorização cultural, em respeito ao que eles são, um reconhecimento social. Esse tema veio com essa intenção de querer que eles sejam resgatados.”

“A gente começou a se aprofundar nas pesquisas, sem clicar, de abril pra maio de 2010. Clic mesmo foi em novembro do ano passado, quando a gente foi para o evento Pega de Boi no Mato da Fazenda Pitombeira, que vem tentando resgatar essa cultura.”


Nesse ano, em janeiro, a gente começa a ir por conta própria, sem depender de eventos, mas já com o foco definido no vaqueiro tradicional do Seridó.

 

“A gente começou a ir juntos e algumas vezes separados, até mesmo por que eu trabalho, ele trabalha. Engraçado a gente dizer isso, por que o que a gente faz lá também é um trabalho. A diferença é que lá a gente não ganha e gasta o que ganha aqui para fazer esse outro trabalho.”

Vocês estão falando aí das dificuldades de levar adiante um trabalho como esse. As dificuldades são dadas a partir da negação de apoio?

“A negação de apoio nesse projeto não aconteceu. Agora, conhecendo a estrutura artística cultural potiguar eu acho que a gente tem muita negação. Na verdade não é uma negação, é a dificuldade de acreditar que essa cultura pode vir a ser um investimento no bem estar social. Esse bem estar envolve o lazer, o entretenimento. Então, a economia da cultura ainda está muito embrionária por aqui. Eu diria até que talvez no Brasil inteiro. A gente tem poucos que acreditam em projetos de expressão artística, seja foto, teatro, dança. A gente enfrenta muita dificuldade, sim, pra fazer a nossa arte. A gente não encontra tanta dificuldade pra trabalhar num mercado que consome muito rápido essa imagem, seja publicidade, seja jornalismo.

Todas as pessoas que apoiaram e patrocinam essa exposição acreditaram no que a gente quis mostrar. Diante de toda dificuldade existe uma esperança, tem uma luz no fim do túnel. Tem algumas pessoas que terminam sendo heróis de verdade, de coração.”

 

“A gente teve Ricardo Juqueira ajudando na curadoria. Ele foi muito feliz na seleção das fotos, na unidade que ele conseguiu chegar.”

 

Dá pra sobreviver de fotografia aqui em nosso estado?

“Com essa fotografia artística não. Eu vou ser bem irônico, a fotografia que dá mais retorno é a que a gente gosta de fazer, mas a fotografia que nos traz mais renda é a que simplesmente não dá calote. O jornalismo tem um tipo de exigência pra fotografia, a publicidade tem outro, o social tem outro, e cada um tem seus valores específicos. Agora, o que se precisa para cada um deles é diferente. No final das contas, essa luta pra gente ter a nossa fotografia com a remuneração que a gente gostaria está bem longe.

Por trás desse trabalho de vocês a gente vê não apenas memoria cultural, mas também pessoas. Como foi o contato com esses vaqueiros e suas famílias?

“Em geral, sem exceção, eles têm um coração muito grande, são muito hospitaleiros. Se sentem orgulhosos e honrados pelo simples fato da gente estar dando atenção a eles. Essa aproximação da gente despertou um sentimento neles que eu acho que estava adormecido. Por que pra ir para as casas dos vaqueiros são estradas. Como eles dizem: o cabra só vem aqui a negocio, é difícil alguém vir aqui só pra apertar a minha mão. Então a gente se propôs a isso.”

Depois da exposição, o que vem pela frente com esse projeto?

“Aqui a gente tem um recorte somente de Acari. Esse trabalho pertence a uma ideia original do coletivo que é ensaios potiguares de fotografia. São diversos temas que abordam assuntos culturais ou econômicos que o coletivo vai discutir. O primeiro desses ensaios é o vaqueiro tradicional do Seridó.”

Alex explica que Fragmentos de uma tradição é um recorte da série vaqueiros tradicionais do Seridó. Nesse primeiro momento Acari foi escolhida devido uma estratégia logística. Outras cidades do Seridó serão percorridas dando continuidade ao leque de interesses pelo vaqueiros tradicionais da região.

O que é um vaqueiro tradicional?

O vaqueiro é um cara que pela própria natureza e local é geralmente simples, na sua maioria são analfabetos. São pessoas simples, de bom coração, que valorizam muito a família, os amigos. A proposta da gente é isso, e não mostrar só aquele vaqueiro encourado que vai ao mato atrás do boi.

Para Pablo o vaqueiro da época de Euclides da Cunha ou de Osvaldo Lamartine talvez não seja o mesmo de hoje. Ele aponta vários fatores, como a internet, o telefone, a moto, que fazem com que o contemporâneo extraia imagens completamente diferentes.

A cada viagem Pablo e Alex passavam cerca de dois dias fotografando. No começo chegaram a ficar em pousada. Depois foram sendo acolhidos pela comunidade foco da pesquisa.

A parafernália do estúdio a bordo carregado nas primeiras viagens foi logo descartada. Todo o trabalho foi feito com equipamento básico, sem uso do flash para preservar a iluminação natural. O resultado são fragmentos de uma tradição que compõe uma exposição fotográfica recheada de cultura, história e símbolos de resistência da caatinga nordestina.

Recado final

“Somos uma unidade, um coletivo. Todas as fotos da exposição são dos dois.
A gente precisar gerar esse diálogo, queremos que outras pessoas mostrem também seus projetos. Vamos sacolejar o esqueleto e venham ver fotografia.”

“Quiçá um dia eu possa repousar sobre o arvoredo retalhado da caatinga,
Sobre os vãos inveterados da cultura, com o coração batendo feliz.”

 

A exposição fica no Solar Bela Vista até o dia 25 de agosto. Pablo e Alex manda um convite a escolas, cursos e grupos para ver as fotografias e refletir sobre a cultura dos vaqueiros tradicionais do Seridó. Vai lá.


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